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Cultivando pensamentos

A cultura de um homem é aquilo que ele colhe. O resultado da colheita vem do que ele cultiva. Todo dia, semeamos pensamentos, idéias, conceitos, teorias, certezas. Quem planta banana nunca vai colher laranjas. As sementes,  todavia, virão sempre dos mesmos frutos, serão sempre as mesmas.

Toda vez que sou abordado por alguém que me pede dinheiro, me questiono por instintivamente dar a mesma resposta – “desculpe, não tenho”, mesmo sabendo que meu bolso está cheio de moedas que se perderão na imensidão das gavetas, dos bolsos e dos cantos de móveis da minha casa, até se perderem para sempre nas pequenas e inúteis coisas em que serão trocadas, que certamente não são tão necessárias. Sempre me arrependo de tomar a mesma atitude, mesmo com o pensamento, já de raízes fortes e bem firmes, de que toda pessoa que pede dinheiro é alguém que realmente não precisa dele, ou não o usará em algo realmente preciso.
Talvez a minha certeza sobre o outro seja apenas um reflexo do que eu mesmo farei, de mim mesmo. A única certeza é que ela não existe, que é apenas um referencial pra lembrar que a dúvida sempre vai existir. Entre o certo e a dúvida existem muitas outras coisas. O mundo não é feito só de laranjas ou de bananas.

Numa quarta-feira qualquer

Estou fazendo algumas reformas em casa. Nada drástico. Pintando cômodos e ajeitando umas coisas no banheiro. Mesmo assim, já é incômodo ao ponto de não haver condições de habitar o lugar. Um pó, quase atômico, vaga por todos os espaços entre as moléculas. Plásticos envolvem todas as coisas possíveis: geladeira, fogão, Tv, sofá, mesa da cozinha, copos, panelas. Tudo que eu tenho nessa vida está em caixas. Não dá pra chamar de nada, quem dirá de casa.
Tudo parecia bem, até eu descobrir, numa sexta-feira, data prevista para a entrega, que estava tudo errado. O que lembro de pior era que algumas paredes foram pintadas sem passar a massa antes, era possível ver a tinta velha por baixo da nova; e que havia sujeira no piso que deveria ter sido protegido. Quando achei que não faltava mais nada, o pintor, ao invés de usar só água, usou produtos pra limpar a tinta do piso. O piso foi destruído. O pedreiro responsável pela obra ia tentar dar um jeito.
Ontem, terça-feira, apareci pra ver como as coisas iam. As tentativas de melhorar o piso tinham piorado o que já estava ruim. Quando vi, não tive reação. Não sabia o que fazer. Sai de minha casa e fui até a casa da minha mãe. Fiquei muito tempo calado, pensando na situação em que me encontrava. Naquele momento, eu sentia um vazio: não era raiva, nem ódio, nem desespero. Não era nada.
Hoje, quarta-feira, um baque: o pai de um colega havia falecido. Na manhã de ontem, estava em uma reunião com esse colega. Ele, sempre humorado, tranquilo. A reunião corria bem, até que ele recebeu um telefonema. Era sua irmã, que pedia pra que ele fosse ao hospital. O estado de saúde do pai havia piorado. O colega empacotou as coisas e partiu subitamente. A princípio, a situação não parecia ser nada demais: o portão da casa do pai dele havia sido consertado e não podia ser aberto; o senhor resolveu pular o muro pra não abrir o portão. Levou um tombo besta, mas a coisa se agravou porque ele tinha se submetido a uma cirurgia de hérnia umbilical há poucos meses.
Por dez minutos, me imaginei na situação do colega. Minha casa não deixou de ter valor nem de ser importante. Continuo tendo que pensar no que vou fazer pra resolver meu contratempo, mas, por dez minutos, passar pelo que estou passando pareceu uma dádiva.

Preenchendo lacunas

Pare de presumir as coisas. Se não sabe, e realmente te interessa, vá saber. Senão, não invente. Não serve pra nada.
Te falo isso com propriedade. Sou um curioso nato, do grupo dos muito curiosos. Não sei se é sorte ou azar, mas eu até gosto de ser assim. Gosto de ter o poder de contestar as coisas até que elas façam algum sentido nos meus sentidos.
Se você me contasse, por exemplo, que um amigo seu foi roubado, eu provavelmente nem precisaria de você pra me dizer como foi. Minha lógica-delirante preencheria todos os espaços em branco com fatos que certamente seriam os mais lógicos. Lógica minha, óbvio. E essa seria a minha verdade.
Eu me livrei disso? Claro que não totalmente. É difícil se livrar de antigos hábitos, mas essa coisa se dissipou. Se o assunto me despertar vontade de buscar mais, o farei. Pra todas as outras opções, tanto faz.
Aprender a lidar com isso foi coisa que aprendi na faculdade da Vida – a melhor delas (falarei dela outro dia). Uma das matérias é a arte de dizer “não sei”. Não há nada mais libertador e leve do que responder “não faço ideia” pra alguém que, ávido, vem pergunta se sei de algo que jamais ouvi falar. Sou capaz de permanecer mudo enquanto vejo um outro curioso responder sozinho as perguntas que inventa. É bem divertido ver isso acontecer.
Presumir as coisas é uma merda, por três razões: É uma inútil, dispendioso e desgastante.
Inútil porque inventar uma história não vai responder sua pergunta. Ao menos, não com a verdade. Será apenas sua imaginação em ação.
Também é dispendioso, dependendo do seu nível de narrativa. Perder um tempo detalhando seu próprio universo imaginário que rodeia suas respostas fantasiosas só lhe farão estimular sua mente inventiva. Isso é ótimo, se você é um artista ou escritor. Se você mente e enriquece sua mentira, continua não sendo verdade.
Além de tudo, é desgastante. Imagine colocar frente a frente dois peritos tentando desvendar um crime de assassinato. Só um problema: nenhum deles estava na cena do crime. Uma guerra de verdades que não existem.
Continuarei sendo curioso. Continuo querendo tentar entender porque algumas coisas na vida se desenrolam tais como as vejo. Se você me perguntar o que acho, já sabe qual vai ser a resposta.

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