Numa quarta-feira qualquer

Estou fazendo algumas reformas em casa. Nada drástico. Pintando cômodos e ajeitando umas coisas no banheiro. Mesmo assim, já é incômodo ao ponto de não haver condições de habitar o lugar. Um pó, quase atômico, vaga por todos os espaços entre as moléculas. Plásticos envolvem todas as coisas possíveis: geladeira, fogão, Tv, sofá, mesa da cozinha, copos, panelas. Tudo que eu tenho nessa vida está em caixas. Não dá pra chamar de nada, quem dirá de casa.
Tudo parecia bem, até eu descobrir, numa sexta-feira, data prevista para a entrega, que estava tudo errado. O que lembro de pior era que algumas paredes foram pintadas sem passar a massa antes, era possível ver a tinta velha por baixo da nova; e que havia sujeira no piso que deveria ter sido protegido. Quando achei que não faltava mais nada, o pintor, ao invés de usar só água, usou produtos pra limpar a tinta do piso. O piso foi destruído. O pedreiro responsável pela obra ia tentar dar um jeito.
Ontem, terça-feira, apareci pra ver como as coisas iam. As tentativas de melhorar o piso tinham piorado o que já estava ruim. Quando vi, não tive reação. Não sabia o que fazer. Sai de minha casa e fui até a casa da minha mãe. Fiquei muito tempo calado, pensando na situação em que me encontrava. Naquele momento, eu sentia um vazio: não era raiva, nem ódio, nem desespero. Não era nada.
Hoje, quarta-feira, um baque: o pai de um colega havia falecido. Na manhã de ontem, estava em uma reunião com esse colega. Ele, sempre humorado, tranquilo. A reunião corria bem, até que ele recebeu um telefonema. Era sua irmã, que pedia pra que ele fosse ao hospital. O estado de saúde do pai havia piorado. O colega empacotou as coisas e partiu subitamente. A princípio, a situação não parecia ser nada demais: o portão da casa do pai dele havia sido consertado e não podia ser aberto; o senhor resolveu pular o muro pra não abrir o portão. Levou um tombo besta, mas a coisa se agravou porque ele tinha se submetido a uma cirurgia de hérnia umbilical há poucos meses.
Por dez minutos, me imaginei na situação do colega. Minha casa não deixou de ter valor nem de ser importante. Continuo tendo que pensar no que vou fazer pra resolver meu contratempo, mas, por dez minutos, passar pelo que estou passando pareceu uma dádiva.

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